O Belga de Esperantina: A história esquecida do Dr. Júlio Hartman
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| (Imagem meramente ilustrativa) |
Recentemente, uma pergunta vinda de dentro do hospital de Esperantina me chamou a atenção: "Quem foi, afinal, o homem que dá nome a esta instituição?". A resposta para essa dúvida de uma amiga enfermeira não estava nas placas de bronze, mas sim nas páginas amareladas da história e em documentos de inventário do início do século XX.
Um Refúgio da Grande Guerra
Dr. Alberico Júlio Hartmann Rodrigues
não era piauiense de nascimento, mas sim de coração. Nascido em Bruxelas, na Bélgica, em 8 de junho
de 1883, sua trajetória cruzou o oceano em um dos momentos mais sombrios da
Europa.
Fugindo dos horrores e da devastação da Primeira Guerra Mundial (1914-1918),
que atingiu duramente sua terra natal, o jovem médico buscou refúgio no Brasil.
Ao se naturalizar e casar-se com a piauiense Dona Almerinda Rodrigues, ele tomou uma decisão
singular: para integrar-se completamente à sua nova pátria, adotou o sobrenome
da esposa, justificando o que alguns viam como a curiosidade de um belga
assinar "Rodrigues".
O Elo Documental: O Inventário de Marcolino
A prova dessa transição aparece em um documento precioso de 1915: o
inventário de seu sogro, o Coronel Marcolino Francisco Rodrigues.
Naquela época, Dr. Júlio e Almerinda ainda residiam na Vila de Santa Quitéria,
no Maranhão. Marcolino, embora vivesse no Maranhão, era natural de Luzilândia,
Piauí, o que explica os laços familiares que trouxeram o médico belga para as
terras piauienses anos depois.
Transcrição do
Inventário (1915): "Almerinda
Rodrigues Hartman, de 35 anos, casada com Júlio Alberico Hartman, residente na
villa de Santa Quitéria deste termo."
O Primeiro Médico e Juiz: Um Sacerdócio Real
Em 1922,
Dr. Júlio chegou à então Vila da Boa Esperança (Esperantina), vindo da cidade
do Brejo-MA. Por 19 anos, ele foi o único guardião da saúde na região, atuando
com uma abnegação rara. Sua dedicação era tamanha que:
- Atendia a qualquer hora do dia ou da noite, fosse na "rica alcova" ou no "mísero casebre".
- Muitas vezes não cobrava pelas consultas, sendo um homem caridoso e sem cobiça.
- Além da medicina, serviu à comunidade como Juiz Distrital no período de 1930 a 1933.
"Além de
ginecólogo, obstetra e pediatra, Dr. Júlio Hartmann fazia clínica geral,
chegando muitas vezes praticar cirurgia, isto em casos de emergência, tendo o
seu bisturi salvado inúmeras pessoas."
Um Legado de Gratidão
Dr. Júlio faleceu
em 28 de maio de 1941, aos 57 anos. Ele morreu pobre e,
lamentavelmente, esquecido por muitos, tendo doado sua vida ao "Velho
Retiro" que adotou como sua verdadeira Terra Berço. O local onde hoje
funciona o Quartel da Polícia Militar era sua antiga residência, situada em uma
praça que ele mesmo arborizou e que o povo chamava carinhosamente de "Campo
do Dr. Júlio".
Hoje, resgatamos
esta história para que, ao passar pelos corredores do hospital que leva seu
nome, cada cidadão de Esperantina saiba que ali reside a memória de um belga
que se fez irmão e benfeitor do nosso povo.
Fontes
Consultadas:
Documentação
Primária: Página do
Inventário de Marcolino Francisco Rodrigues (1915), Santa
Quitéria-MA, fl. 8.
Literatura
Histórica: SAMPAIO,
Antonio. Esperantina à Luz da História. Teresina, p. 64-68.
Bases de Dados Genealógicos: Registro de óbito e dados biográficos extraídos da plataforma FamilySearch (1883-1941).

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