As lápides foram enterradas no assoalho do altar

Falar do dia de Finados é falar de morte, cemitério e religião visto que se relacionam. A morte é o tema principal das religiões por esta constituir-se até hoje no grande mistério que envolve a humanidade. A morte lembra a cor negra, cruz, velas, no entanto é um fenômeno natural, ou seja, faz parte da natureza humana morrer, é também um processo natural da vida físico-biológica de cada ser.
Cemitério da Fazenda Caraíbas

Os cemitérios são museus a céu aberto, pois nos contam a história da vida e da morte de uma sociedade e em forma particularizada de seus membros. As religiões tratam de forma diferente a morte, conforme a natureza de sua civilização e crença. Os cristãos ocidentais pregam a ressurreição e alguns a reencarnação, já os orientais e os fundamentalistas lidam diferente com a morte. A morte também tem a sua natureza de classe quando podemos ver como as diferentes sociedades promovem os seus rituais de despedida e de enterro. Em todas as sociedades e religiões é percebida esta natureza de classe.

Os egípcios construíam pirâmides e acrópoles para seus reis e poderosos, os romanos construíam estátuas e mausoléus. Os cristãos seguiram a maneira da classe menos favorecida-a de enterrar em covas ou sepulturas seus finados. Mesmo no seio da cristandade as distinções foram aparecendo, sobretudo na prática do enterro dos seus mortos, sendo os reis católicos, membros da Igreja e muitos poderosos enterrados nos templos religiosos. Os pobres eram enterrados nas proximidades das Igrejas. 

Na segunda metade do século XIX, na Europa, por questão de saúde publica os enterros foram proibidos dentro das Igrejas e nas áreas urbanas. No Brasil esta tradição prevaleceu até o início do século XX. Em Batalha (PI) até pouco tempo ainda era possível se ver as lapides alusivas às personalidades enterradas dentro e fora da Igreja. As lápides permaneceram por um curto período no adro da Igreja de São Gonçalo e foram retiradas e enterradas no assoalho do altar. Existe uma tese entre os mais velhos de Batalha que existia um cemitério atrás da Igreja de São Gonçalo, o que ainda não foi pesquisado para comprovar a sua veracidade.

A morte sempre foi banalizada, apesar de nós cristãos acreditarmos ser ela intrinsecamente relacionada à vida que nos foi dada por Deus. A vida corresponde à morte, mas para os cristãos ela deve ser um estágio para o encontro com o seu criador através da ressurreição no Juízo final. Prolongar a vida e retardar a morte sempre foi uma busca da humanidade. No entanto a vida a cada dia se torna algo quase insignificante. Um cineasta brasileira muito bem retratou isto num premiado filme- Nós que aqui estamos por vos esperamos- o titulo do filme corresponde aos dizeres na porta de entrada de um cemitério na cidade de Paraibuna no interior de São Paulo e, a imagens e roteiro são baseadas na obra do historiador marxista Inglês Eric Hobsbawn - A era dos extremos - O breve século XX. O filme canaliza toda a carga sentimental e critica ao século de intolerância religiosa com o fundamentalismo que mata em nome de Deus, aos regimes políticos totalitários que provocam guerras em nome de ambições pessoais, de um suposto progresso e de extremismos como discriminação e preconceito que mata sem medida. Em nome da fé, do progresso e da civilidade se mata milhões de pessoas. A banalização da morte está esculpida em cada canto, em cada sentimento irracional ainda que nós que ainda estamos esperamos por gerações que ainda estão por vir que nos tragam esperança e por Deus para finalmente salvar a humanidade.

Valfrido Viana ( Historiador)

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