Cônego Antonio Borges Leal (Por Miguel Borges)

Antiga Sé da Bahia

“Oferecido, como testemunho da mais respeitosa estima e veneração, a minha tia, D. Clara Rosa Leal Castello Branco.”

Antonio Borges Leal, o primeiro deste nome, filho legítimo do fazendeiro piauiense João Borges Leal, e de sua mulher D. Clara da Cunha e Silva Castello Branco, a segunda do mesmo nome, – nasceu em 1742(quando ainda não tinha tido execução o Alvará de 1718, que elevou o Piauí à categoria de província) – na fazenda “São Pedro” que então pertencia a antiga freguesia de Santo Antonio do Surubim, depois Villa de Campo-Maior, em virtude da Carta regia de 19 de janeiro de 1761; e atualmente à moderna Villa de Nossa Senhora do Livramento.

Destinado por seus pais á vida eclesiástica, teve de partir para o Maranhão, aos 14 anos de idade, em 1756, a fim de estudar no respectivo Seminário. Três anos depois, seu pai foi acometido por uma grave enfermidade, e faleceu a 20 de setembro de 1759; –dia, mês e ano, em que teve lugar em Oeiras, capital da província, a posse do primeiro governador do Piauí, o coronel João Pereira de Caldas!

Ferido profundamente o coração do jovem estudante, com a infausta e dolorosíssima notícia do falecimento de seu idolatrado pai, –partiu para a fazenda “São Pedro” à chamado de sua mãe, que pranteava inconsolável a perda irreparável que sofrerá; e chegando ali a 23 de dezembro de dito ano de 1759, demorou-se alguns meses em companhia dela, procurando-lhe, –como bom filho, o conforto e consolação de que carecia, em seu incessante e angustiado pranto.

A 25 de março de ano seguinte, 1760, voltou o Seminarista Antonio Borges, para o Maranhão, a fim de continuar com os seus estudos, –recebendo as ordens sacras em janeiro de 1767;–tendo tido, porem, a infelicidade de perder também, dois anos antes da conclusão dos seus estudos, a sua extremosa e virtuosa mãe.

Logo depois de ordenado, o distinto sacerdote  piauiense, desejoso de mais conhecimentos e de novas luzes, resolveu fazer uma passeio a Portugal, a onde se demorou cerca de onze anos, e regressando ao Brasil em 1777, no caráter de cônego da Sé da Bahia, ali fixou a sua residência, passando depois a ocupar o cargo de Deão da mesma Sé, lugar que exerceu por muitos anos, e em cujo caráter faleceu em 1810–tendo prestado relevantes serviços a Igreja e a humanidade.

O cônego Antonio Borges, que durante o tempo que esteve na Europa, que depois passou a residir na Bahia, jamais se esqueceu de sua família e da terra que o viu nascer. Apesar da grande distância que se tinha à percorrer, da Bahia ao Piauí; apesar das imensas dificuldades que tinha à vencer , naquelas épocas semi-bárbaras, aqueles que emprendiam tais jornadas, –ele vinha, de quando em vez, a sua província natal, com o fim de visitar os seus parentes: por ocasião de um desses passeios ao Piauí, levou ele em sua companhia, os seus dois sobrinhos – Joaquim de Sousa Borges Leal Castello Branco, e Miguel de Sousa Borges Leal Castello Branco, e os mandou depois para Portugal, às suas expensas, com o fim de estudarem em Coimbra, deixando-lhes livre a escolha da carreira que quisessem seguir: o primeiro, depois de passar alguns anos em Coimbra, fez um passeio a Lisboa, e ali casou-se em 1797, com a Srª D. Maria do Nazaré, e regressando por fim ao Brasil, voltou para o Piauí, fixando a sua residência na fazenda “São Pedro”: –o segundo, dedicando-se com grande proveito aos estudos, formou-se em direito, em 1806, na Universidade de Coimbra.

Em homenagem a minoria do ilustrado e virtuoso sacerdote piauiense, o cônego Antonio Borges Leal, concluímos este pequeno artigo, com a notícia que em seguida publicaremos, a respeito da edificação feita por seus avós, de uma pequena Igreja, – com a denominação de capela de Nossa Senhora do Livramento – hoje matriz da moderna da Vila do mesmo nome, da qual ele nunca se esqueceu, promovendo sempre, de onde quer que se achasse, o seu melhoramento e prosperidade.

*Artigo publicado no jornal “A Imprensa” de 1878

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