As Sesmarias do Coronel José de Miranda: Ocupação e Poder no Piauí de 1799


O estudo da formação territorial de Batalha e Piracuruca ganha novos contornos com a análise das Cartas de Sesmarias registradas entre 1789 e 1809. Um registro em particular chama a atenção: as concessões feitas ao Coronel José de Miranda, morador do Povoado Batalha de São Gonçalo.

​Em 29 de fevereiro de 1799, o Coronel obteve vastas "datas" de terra. A primeira abrangia as regiões de Carahibas, S. Lazaro, Mucambo e Riacho Fundo. A segunda, em Piracuruca, localizava-se na Faveira, estendendo-se por três léguas de comprimento a partir do "Olho d'Agua das Vassouras".

​Extensão das Terras: Cada "data" de sesmaria mencionada possui 3 léguas de comprimento por 1 légua de largura. Na época, a légua sesmaria equivalia a aproximadamente 6,6 km, o que significa que cada concessão cobria cerca de 130 quilômetros quadrados (ou 13.000 hectares).

Geografia Local: * A menção ao Olho d'Agua das Vassouras e ao Riacho Faveira em Piracuruca ajuda a situar com precisão onde ficavam as propriedades originais do Coronel. ​O termo "pião" (peão) no primeiro trecho refere-se ao ponto central ou marco de referência de onde se iniciava a medição da terra.

Transcrição do Documento

​Trecho 1: Carahibas, S. Lazaro, Mucambo e Riacho Fundo

CARAHIBAS, S. LAZARO, MUCAMBO E RIACHO FUNDO. — Data com três leguas de comprido e uma de largo, em terras devolutas entre as referidas fazendas, fazendo comprimento, largura e pião como melhor convier. Concedida em 29 de Fevereiro de 1799 a José de Miranda e registada a fl. 31 v.

Trecho 2: Faveira (Piracuruca)

​FAVEIRA — Piracuruca — Data com três leguas de comprido e uma de largo, começando-se a medir o comprimento no lugar Olho d'Agua das Vassouras de baixo rumo direito pelo rio acima (riacho Faveira), e a largura meia legua para cada lado do dito riacho. Concedida em [29] de Fevereiro de 1799 a José de Miranda e registada a fl. 32 v.

​A Conexão Familiar

Além do valor histórico-geográfico, esses documentos iluminam a rede de influência das elites agrárias do Piauí Setecentista. O Coronel José de Miranda foi uma figura central na árvore genealógica da região. Sua neta, Ana Francisca de Miranda, ao casar-se com Amaro José Machado (cujo trágico fim em 1851 ecoou por toda a província), levou consigo não apenas o nome, mas a herança de uma linhagem de grandes proprietários de terras. Essa união consolidou a influência dos Machado na região, unindo o prestígio colonial dos Miranda à força política que Amaro José e, posteriormente, seu filho José Amaro Machado, exerceriam em Batalha e arredores.

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