O Crime que a Polícia do Piauí culpou o Diabo: O Mistério de Barras (1869)
Imagine encontrar um corpo em condições bárbaras: despido, estrangulado e castrado. Agora, imagine a polícia e as autoridades locais aceitarem a explicação de que o culpado foi, literalmente, o Demônio.
Este não é o roteiro de um filme de terror, mas um caso real ocorrido na província do Piauí. O crime aconteceu em dezembro de 1869, no Campo do Jaboti, em Barras, mas o escândalo da impunidade só ganhou as páginas do jornal A Imprensa em novembro de 1872.
O "Pacto" da Impunidade
A vítima foi um homem escravizado chamado Filippe. Apesar dos claros sinais de luta e da violência brutal do assassinato, uma narrativa bizarra começou a circular na região: a de que Filippe seria "impautado" (tinha um pacto com o diabo) e que o próprio "Cão" teria vindo cobrar a dívida, matando-o daquela forma terrível.
O autor da denúncia no jornal não poupou sarcasmo para criticar o governo e a polícia:
"Se o governo consentir que impunemente venha o diabo cometer tais crimes, vamos mal e muito mal..."
Naquela época, usar o sobrenatural era uma estratégia astuta de quem tinha influência. Ao atribuir o crime ao diabo, encerrava-se a investigação. Ninguém seria preso, ninguém seria julgado. O "boato", como diz o texto, foi criado por quem tinha "muito interesse na impunidade".
O texto termina citando nomes de figuras importantes da época (Capitães e Tenentes), sugerindo que eles sabiam muito mais do que o boato do "diabo" deixava transparecer. Confira os nomes:
- Capitão Laurentino Gomes Rabello.
- Antonio Ribeiro Torres (marcado em verde).
- Tenente Noé Rabello de Araujo.
- Valdevino Ribeiro Torres (marcado em verde).
O que esse caso nos revela?
Esse recorte histórico é um exemplo visceral de como a justiça no Brasil Imperial era seletiva. A vida de um homem escravizado valia tão pouco para o Estado que uma desculpa mística era o suficiente para arquivar um homicídio bárbaro.
E você, acredita que o diabo andou pelas terras de Barras em 1869 ou o verdadeiro mal usava farda e sobrenome importante?
Transcrição Original (1872)
Para S. Exc. o Sr. presidente da provincia, e Dr. chefe de policia verem e apreciarem
No dia 8 de dezembro de 1869 foi barbaramente assassinado no lugar Campo do Jaboty d’este termo o escravo Filippe de propriedade do Sr. Diogo de Oliveira Lopes; no seguinte dia foi achado o cadaver despido e castrado, além de estrangulado, e no lugar do crime erão bem viziveis os signaes da luta rezultante da defesa da victima: entretanto a partir de alguem que talvez muito interesse tivesse na impunidade, espalhou-se o boato de que sendo o infeliz escravo impautado fôra morto pelo diabo. E’ certo porem que esse boato aliás sem a menor razão de ser, trouxe a impunidade do facinora, por isso que nenhum procedimento houve até hoje, para sua descoberta e punição. Se o governo consentir que impunemente venha o diabo commetter taes crimes, vamos mal e muito mal, e por isso lembramos uma inquirição policial a respeito: ella pode aclarar esse tenebroso misterio, maxime chamando-se para testemunhas as pessoas mais notaveis da visinhança como bem os capitães Laurentino Gomes Rabello, Antonio Ribeiro Torres, Manoel Rodrigues Lages, tenente Noé Rabello de Araujo, alferes Valdevino Ribeiro Torres, Lucio José de Araujo, Frederico José Rodrigues, José Joaquim d’Araujo.
Barras 1 de novembro de 1872.


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