Batalha, 1860: Onde o Progresso Esbarrava no Rio dos Matos


Mergulhar nos documentos do Arquivo Público do Estado do Piauí é como ouvir a voz dos nossos antepassados cobrando o que hoje chamamos de infraestrutura básica. Encontrei um ofício raríssimo, datado de 27 de abril de 1860, que desenha o cenário de desafios da nossa querida Vila da Batalha.

Urgência Máxima

A Câmara coloca a reforma da igreja como a "primeira e mais urgente necessidade" de todo o município, antes mesmo das estradas.

"...as medidas mais próprias para remover tais inconvenientes, tem a honra de informar a V. Exa. que a primeira e mais urgente necessidade n’este Município, dá-se na reparação do Templo que serve de Matriz, pois, sendo uma boa Igreja, construída de pedra e cal, está em todo estado de desmancho, não só o frontispício, como as paredes, por causa de várias fendas que existem. Não tem ornamentos precisos para a decente celebração do Ofício Divino, faltando também um Sacrário o que é muito sensível".

​O "Gargalo" do Rio Longá

​Para quem conhece a nossa região, um detalhe técnico muda tudo: o Rio Longá não era navegável. Sem o transporte fluvial, as estradas de terra eram as únicas artérias de vida para o comércio de gado e algodão. No documento enviado ao Presidente da Província, a Câmara Municipal clamava por reparos em um trajeto estratégico de doze léguas, até encontrar a estrada que vem do Ceará para o Porto da Parnaíba.

O Caminho das Pedras (e das Fazendas)

​A estrada descrita partia da Vila e passava por lugares que até hoje ecoam na nossa história familiar:​ 
  • Brejo da Inveja (o núcleo original antes dos desmembramentos);
  • Picada e Cachoeira (propriedades ligadas dos Castro Souza na margem direita do Longá);
  • Vitória de Baixo, Santo Antônio e Saco. As duas últimas atualmente fazem parte do território de Joaquim Pires).
​O grande drama? A "Passagem" no Rio dos Matos, na divisa com Piracuruca (mencionado explicitamente como a "linha divisória" entre os dois município). No "tempo do inverno" (período chuvoso), a comunicação era cortada por muitos dias, isolando a produção e a correspondência. 

O objetivo da estrada que passava pelo Brejo da Inveja, Picada e Cachoeira era alcançar o "Porto da Parnaíba" e o "Porto de Granja".

​"Agricultura que Definha"

O redator do documento é contundente: a única indústria do município era a agricultura e a criação de gado. Ele cita os produtos cultivados na terra: milho, arroz, feijão, mandioca e algodão. Mas, apesar das terras férteis e abundantes d'água, ele lamentava que a produção definhava por "incúria dos habitantes" e falta de incentivo, limitando-se muitas vezes à subsistência.

Quem eram os Articuladores?

O poder político em 1860 era um retrato da nossa árvore genealógica. Sob a presidência de José Florindo de Castro (irmão da minha trisavó Auta Inês de Castro), a Câmara era composta por oficiais da Guarda Nacional que sentiam na pele (e no bolso) o isolamento das estradas:
  • Tibúrcio Rodrigues de Carvalho (Vice-Presidente e primo de minha trisavó Dorotéia);
  • Antonio Lopes de Miranda (Bisneto do Coronel José de Miranda);
  • ​E nomes como Joaquim Marcelino de Carvalho e José Rodrigues Falcão.
​Esses homens não estavam apenas redigindo burocracia; estavam lutando para viabilizar o escoamento da riqueza de suas próprias fazendas em um Piauí onde a geografia não facilitava o progresso.

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