Retratos da Administração Imperial: O Orçamento da Vila da Batalha em 1886

"Além de Presidente da Câmara, Benício Paulo d'Alencar era ligado à família Castro pelo casamento de seu filho, Domingos, com Francisca de Castro Melo, sobrinha de meu bisavô Antero Gomes de Castro."

Mergulhar nos arquivos do Piauí é, muitas vezes, encontrar a "contabilidade do cotidiano". Recentemente, localizei um documento precioso no Arquivo Público do Estado: a Proposta de Receita e Despesa da Câmara Municipal da Vila da Batalha para o ano de 1886-1887. Assinado em 23 de outubro de 1886, o manuscrito revela as prioridades, os desafios e os costumes de uma comunidade que, à época, vivia os últimos anos da Monarquia.

A Estrutura da Máquina Pública

O documento nos mostra que a Vila da Batalha possuía uma estrutura administrativa enxuta, mas organizada. O orçamento previa o pagamento de três figuras centrais para o funcionamento da edilidade:

  • O Fiscal: Responsável por aplicar as posturas municipais.

  • O Secretário: O guardião da burocracia e das atas.

  • O Porteiro: Responsável pelo zelo do Paço Municipal.

Educação e Infraestrutura: As Prioridades da Época

Chama a atenção o olhar social da Câmara. Em um período onde o acesso ao ensino era restrito, o Artigo 1º reservava a quantia de 200$000 réis para o "suprimento aos alunos pobres de ambos os sexos". É um registro raro e importante da preocupação com a instrução pública local.

No campo das obras, o documento destaca dois pontos geográficos fundamentais:

  1. A Água: O maior gasto individual (400$000) era destinado ao conserto do "segundo poço público", evidenciando que o abastecimento hídrico já era um desafio central na região.

  2. A Conexão: A proposta de construção de uma ponte sobre o riacho da missão (atualmente chamado de riacho do cais) que divide a Vila (200$000) revela a necessidade de integração urbana e de facilitar o trânsito de pessoas e mercadorias.

De Onde Vinha o Dinheiro? Engenhos, Comércio e Multas

A receita da Vila era um reflexo direto da economia da Batalha do século XIX. O dinheiro entrava através de impostos sobre:

  • Engenhos de açúcar e aguardente (15 mil réis por engenho).

  • Comércio ambulante e vendas de gado e fumo.

  • A "Tinguijada": Um detalhe curioso é a pesada multa de 20 mil réis para quem fosse pego pescando em poços e açudes com tingui (planta usada para envenenar/atordoar peixes). Isso demonstra uma preocupação precoce com a preservação dos recursos hídricos e a segurança alimentar.

A Elite Política em Assinatura

O documento é encerrado com a assinatura de nomes que compunham a elite política e social da época: Benício Paulo d'Alencar (Presidente), Luís Antonio de Sampaio, João Paulo de Carvalho, Antonio Fortes de Sá Menezes e Antonio Rodrigues de Carvalho Filho. Muitos desses sobrenomes ainda ecoam na genealogia das famílias tradicionais da região de Batalha, Piracuruca e Esperantina.

Conclusão

Documentos como este não são apenas números; são fotografias sociais. Eles nos mostram uma Vila da Batalha que, entre dificuldades financeiras, buscava iluminar suas ruas, educar seus jovens e garantir o acesso à água, enquanto tentava impor ordem ao comércio e à exploração dos recursos naturais.

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