​O Rei do Norte-Nordeste: Sima e o Peso de um Legado em 1977


No final de outubro de 1977, enquanto as bancas de revista de todo o Brasil estampavam a face de Zico na capa da Manchete Esportiva questionando as cifras de seu salário no Flamengo, um fenômeno de contornos mais modestos, porém de eficácia letal, consolidava sua lenda nos gramados do Piauí. Simão Teles Bacelar, o Sima, natural de Miguel Alves, vivia naquele ano um dos momentos mais emblemáticos de sua carreira, personificando o paradoxo do craque que domina sua região enquanto lida com o relativo silêncio dos grandes centros do país.

​A crônica da época, assinada pelo jornalista Alberoni Lemos, descrevia Sima como uma figura de "vaidade dissimulada ou modéstia não muito sincera". Aos 29 anos, o atacante ostentava números que desafiavam a lógica dos artilheiros nacionais. Naquela temporada, Sima defendia as cores do River de Teresina, após uma passagem pelo Rio Negro do Amazonas, e igualava-se a nomes como Roberto Dinamite, do Vasco, na liderança dos artilheiros brasileiros. Com 35 gols marcados, ele não apenas liderava estatísticas, mas pulverizava recordes históricos locais, como a marca de 30 gols de Valdiná que perdurava desde 1956.

O texto historiográfico revela o sentimento de isolamento que permeava a carreira do piauiense. Em suas próprias palavras, Sima reconhecia que o fato de ter nascido no Piauí impunha um teto de vidro às suas ambições de Seleção Brasileira — um destino diferente de contemporâneos como Tostão ou Rivelino, que floresceram sob os holofotes do eixo Rio-São Paulo. Sima era um atleta de hábitos regrados, "sem vícios", focado em sua profissão e consciente de que cada gol era uma afirmação de sua identidade regional.

Um detalhe curioso da narrativa de 1977 era a sua resistência ao apelido que, anos mais tarde, se tornaria sua maior insígnia na voz de cronistas como Milton Neves. Naquele momento, ser chamado de "Pelé de Teresina" era algo que o fazia "perder a esportiva". Talvez pela consciência de sua própria singularidade ou pelo peso de ser comparado ao Rei do Futebol em um estado que ainda lutava por reconhecimento federativo, Sima preferia ser apenas Simão.

Contudo, a história encarregou-se de dar o veredito. O "Pelé do Nordeste" — ou do Norte-Nordeste, como as estatísticas de gols em estaduais confirmam — permanece como o símbolo máximo do futebol piauiense. O recorte da revista de 1977 não é apenas um registro de gols e salários; é o testemunho de um tempo em que o talento florescia em Miguel Alves e ganhava o mundo, mesmo que o mundo, por vezes, demorasse a olhar para o Norte/Nordeste. 

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