​O Batismo de Calor e a "Turma da Pioneira": A Crônica de Pedro Zamora (1981)


Em novembro de 1981, Teresina recebeu a visita de Pedro Zamora (pseudônimo do Brigadeiro Jocelyn Brasil, jornalista do Jornal dos Sports e autor de interessantes livros sobre futebol), uma das assinaturas mais respeitadas do jornalismo desportivo brasileiro. O seu objetivo era nobre e urgente: "elaborar a memória do futebol brasileiro". Zamora viajava pelo país em busca de documentos e rastros do nosso futebol que as entidades oficiais, segundo ele próprio, negligenciavam.

​O Encontro com o "Magro de Aço"

​Ao chegar à "Cidade Verde", Zamora foi acolhido por Carlos Said. A crônica descreve Said não apenas como um jornalista, mas como um anfitrião incansável e um intelectual multifacetado que se dividia entre o INPS, a Universidade, o jornal impresso e a Rádio Pioneira.

Said e Zamora, degustando um caldo de cana.

​Zamora destaca a generosidade de Carlos Said, que lhe entregou uma "história sucinta do futebol da terra", catalogando tudo o que o pesquisador precisava. O cronista carioca chega a brincar com a influência de Said sobre o clima: ao vê-lo reclamar do calor, Zamora relata que o vento balançou os galhos da Praça Deodoro como se atendesse a um pedido do mestre piauiense.

​A Radiografia da Equipe Pioneira

​O texto de Zamora imortaliza a hierarquia e o talento da equipe de esportes da Rádio Pioneira naquele ano, referindo-se a eles como os "ajudantes de campo" de luxo de Carlos Said:

  • Dídimo de Castro: Zamora descreve o impacto de ouvir o "vozeirão" de Dídimo ao ligar o rádio. Define a sua locução como tendo "cheiro de comício" — uma metáfora para a força e a indignação de Dídimo, que naquele momento usava o microfone para denunciar a precariedade dos jogadores do Piauí, que estavam há três meses sem receber salários.
  • Valdir Araújo: Identificado como um "vascaíno de sete costados", Valdir foi quem detalhou para Zamora as mazelas e os males que afligiam os clubes locais, servindo como uma fonte técnica e realista sobre a crise do futebol piauiense.
  • Gomes de Oliveira (Galego) e Deusdeth Nunes (Garrincha): Citados como peças fundamentais que completavam a "turma" que cativou o coração do jornalista carioca.

​O "Drama" da Água Quente

​Um dos pontos mais curiosos da crônica é o relato de Zamora sobre a hospitalidade piauiense temperada pelo clima. Ele descreve, com humor, o "drama" de tomar banho em Teresina, onde a água saía do chuveiro "quente de pelar galinha". Para Zamora, aquele calor da água era o reflexo do "calor humano da gente boa daquela terra".

​Conclusão do Resgate

​A coluna termina com um agradecimento público e emocional. Pedro Zamora afirma que Carlos Said e a sua equipa da Pioneira "adquiriram uma cadeira cativa" no seu coração.

​Este documento de 18 de novembro de 1981 é a prova material de que o jornalismo feito no Piauí, pela Rádio Pioneira, possuía um rigor ético e uma qualidade técnica que forçavam o eixo Rio-São Paulo a reconhecer Teresina como um centro de excelência na preservação da memória desportiva nacional.

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