O Guardião de 1973: A Saga de Dé nas Traves do Futebol Piauiense


Na tarde ensolarada de domingo, 18 de março de 1973, o Estádio Lindolfo Monteiro abria suas portas para receber 6.331 espectadores, ávidos pelas emoções de mais um Clássico-Rei. Sob o apito de Valmidir Soares da Silva, auxiliado por Artur Braz e Antonio Rodrigues Santa Rosa, o gramado da capital seria o palco de uma estreia marcante. Vestindo a camisa do River Atlético Clube, cruzava a linha de cal pela primeira vez em Rivengos um paraibano de Campina Grande, nascido em 26 de janeiro de 1947: José Ferreira da Silva. Para a história, simplesmente .

Aquela rodada inicial do primeiro turno do Torneio Governador Alberto Silva não guardou o resultado que Dé desejava. O Esporte Clube Flamengo levou a melhor, vencendo por 2 a 1 com dois gols de Tião; Marinho descontou para o Tricolor. Mas o destino do arqueiro campinense em terras piauienses guardava muito mais do que a crônica daquele primeiro revés permitia enxergar.

O Redentor do Jejum Tricolor

O ano de 1973 avançou e guardou para Dé o passaporte para a imortalidade no seio do futebol piauiense. O River amargava um doloroso e incômodo jejum de nove anos sem erguer a taça do campeonato estadual. Cabia àquela mítica formação do "Eterno Campeão" dar um basta na longa espera da torcida.

A consagração veio na finalíssima, na "melhora de três" contra a fortíssima equipe do Tiradentes, o temido “Amarelão da PM”. Em um dos campeonatos mais empolgantes e eletrizantes de todos os tempos na história do Piauí, cravou seu nome na galeria do clube tricolor. Naquela temporada, o guarda-metas dividiu o campo com craques como Ozires, Luizinho, Gerson Andreoti, Chumbinho e Derivaldo.

A Consolidação e o Respeito nos Gramados

A trajetória de Dé no futebol local foi marcada pela regularidade e pela liderança. No ano seguinte, em 1974, o goleiro manteve o River no topo da competitividade, conquistando o vice-campeonato estadual. Sua qualidade técnica era tamanha que também vestiu a camisa do próprio rival, o Tiradentes, clube pelo qual disputou o Campeonato Brasileiro de 1973.

Ao longo de sua passagem pelo clássico mais tradicional do estado, Dé defendeu as metas em 14 Rivengos. Em uma época em que o clássico fervilhava e o equilíbrio imperava, o goleiro encerrou seu retrospecto com 3 vitórias, 7 empates e 4 derrotas, números que atestam a dureza dos combates que travou no Estádio Lindolfo Monteiro. Além do Piauí, o arqueiro emprestou seu talento a diversas outras praças esportivas, defendendo com brio grandes clubes do Nordeste.

O Apito Final

Em 28 de outubro de 2017, na mesma Campina Grande onde sua história começou, José Ferreira da Silva despediu-se da vida terrena. Dé partiu, mas deixou cravada na memória dos torcedores piauienses a imagem mítica do guardião que, com as mãos firmes e o coração valente, devolveu a alegria ao River e ajudou a escrever algumas das páginas mais bonitas da historiografia do nosso futebol.

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