O Amanhecer de 1909 na Villa de Campos Salles (Anteriormente Batalha)

O sol de 1909 nascia sobre as águas do Rio dos Mattos e do Riacho Grande, banhando uma Batalha que, por força da política republicana, atendia pelo nome de Campos Salles. Com pouco mais de 10 mil habitantes, a villa não era apenas um ponto no mapa do norte piauiense; era um tabuleiro onde o prestígio da terra e o rigor administrativo se encontravam.
Caminhando pelas ruas de chão batido, o movimento começava cedo nas "Lojas de Fazendas e Miudezas". O comércio, motor da vida social, pulsava sob o comando de figuras como Olegario Arlindo de Castro Bem, Messias de Andrade Melo, Raimundo Francisco Alves e Mergelino Borges Alves, cujos balcões não vendiam apenas tecidos, mas eram pontos de encontro para as notícias que chegavam pelo Correio de Benedicto Castro Machado.
A hierarquia social era clara e respeitada. No topo, os "Capitalistas" e grandes proprietários ditavam o ritmo da economia. Antero Gomes de Castro (morador do sítio Brejo), com o peso de sua linhagem, encabeçava a lista dos agricultores e lavradores, cuidando para que a terra seguisse produtiva ao lado de Antonio Pires Lages — este último, um homem de múltiplos chapéus: Intendente Municipal, inspetor de ensino e dono de um moderno motor para algodão que roncava como sinal de progresso.
O poder, entretanto, era uma questão de família e tradição. Na Intendência, o sobrenome Castro se repetia como um eco de autoridade. Fernando da Silva Castro e José Florindo de Castro Filho dividiam o comando administrativo e judiciário, garantindo que a ordem fosse mantida sob o olhar atento do Conselho Municipal, onde Sérvulo Gomes de Castro presidia as sessões.
Mas a villa não vivia apenas de política. O som do martelo do ferreiro Desiderio da Silva e o ritmo das plainas de carpinteiros como Manoel da Silveira Dutra compunham a sinfonia urbana. A fé e o zelo social ficavam sob a guarda das matronas: Maria do Carmo de Miranda e Maria Madalena de Castro, zeladoras da igreja, cuidavam da alma da comunidade enquanto o Padre Antonio Bezerra de Menezes conduzia os ritos.
Campos Salles em 1909 era, em essência, um microcosmo do Piauí: uma terra de engenhos e lavouras, onde alfaiates, ourives e sapateiros construíam o cotidiano, enquanto as velhas estirpes dos Gomes de Castro, Machado e Pires Lages consolidavam um legado que, mais de um século depois, ainda se deixa ler nas páginas amareladas dos arquivos públicos.
"Mais do que nomes em uma lista burocrática, as figuras que compunham a Campos Salles de 1909 foram os verdadeiros arquitetos da identidade de Batalha. É impossível narrar essa história sem reverenciar o papel vital dos educadores, como D. Maria de Castro Fortes e Fernando da Silva Castro, que nas salas de aula lançaram as sementes do saber. No coração econômico da villa, destacavam-se os donos de engenhos, cujas moendas de cana ditavam o ritmo de metade do ano; durante seis meses de labuta intensa, transformavam a safra em rapadura, melado, açúcar e aguardente, produtos que abasteciam não só a mesa local, mas cruzavam as fronteiras para as vilas vizinhas. Além da produção artesanal de farinha. Esse vigor era sustentado pelos quitandeiros, que faziam a ponte entre o campo e a cidade, e pelos pedreiros, como Antonio Maria da Silva e Carmo Pereira dos Santos, cujas mãos calejadas ergueram casarões. Se a visão administrativa dos Castro e Pires Lages organizava o Estado, era o suor desses mestres de ofício, a produção de dos engenhos e a dedicação dos mestres de escola que garantiam o progresso social. Revisitar esses nomes é, portanto, um ato de justiça histórica: reconhecemos que a Batalha de hoje foi forjada tanto nos palácios da intendência quanto nas moendas, oficinas e escolas de nossos antepassados."
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