As Quatro Receitas do Médico dos Monomaníacos (Capítulo 1): O Calote das Poldras e o Desprezo do Coronel

Se você acha que as brigas políticas e os "barracos" públicos são exclusividade das redes sociais modernas, a imprensa piauiense do século XIX está aqui para provar o contrário. Em uma época sem seções de comentários, os desafetos eram cobrados — e ridicularizados — diretamente nas páginas dos jornais, quase sempre sob pseudônimos criativos.

​Hoje, iniciamos uma série de quatro capítulos baseada em um achado extraordinário nos arquivos: uma publicação de 25 de fevereiro de 1870, impressa no jornal O Piauhy: Orgão do Partido Conservador.

​Sob o disfarce de um médico preocupado, um autor anônimo que assinava como "O médico dos monomaníacos" resolveu receitar "remédios públicos" para conter os acessos de fúria de um conhecido cidadão da Vila da Batalha: o Capitão Antonio Narcizo Xavier Torres. Vamos abrir o nosso primeiro prontuário.

​A 1.ª Receita: Cavalos, Confrontos e Honra Ferida

​Tudo começou no ano de 1866, quando o Sr. Torres decidiu vender um lote de poldras (éguas jovens) para o Tenente Francisco Florindo de Souza Castro. O gado equino era a espinha dorsal do transporte e da economia da época, e o negócio envolvia cifras respeitáveis. Confiando no trato, o Tenente Francisco Florindo — que comprava os animais em nome de seu sogro, o poderoso Coronel Antonio Pires Ferreira — adiantou todo o pagamento em dinheiro.

​O problema começou na hora da entrega. Quando o Tenente foi buscar a tropa, descobriu que o Sr. Torres, "pontual como sempre" (notem a ironia do jornal), havia retido duas poldras. Após uma exaustiva e infrutífera discussão — ou uma "grande massada", como se dizia na época —, o Tenente Francisco Florindo foi obrigado a voltar para casa de mãos vazias e profundamente indignado.

​O tempo passou, mas a dívida não foi esquecida. Aproveitando uma viagem de passeio à Vila da Batalha, o próprio Coronel Pires Ferreira resolveu intervir e mandou reaver as suas éguas. Em resposta, depois de usar de "mil velhacarias e subterfúgios", Torres enviou ao coronel uma carta considerada extremamente atrevida e desaforada.

​Foi aí que a fidalguia do velho coronel falou mais alto através do mais puro desprezo social. Sendo um "ancião venerando", o Coronel Pires Ferreira não se dignou a responder ou sequer guardar o papel. Diante da escrava que trazia a correspondência, ele ordenou que um de seus próprios moleques pegasse a carta de volta e a exibisse de forma acintosa diante da portadora, devolvendo o bilhete com um recado verbal cortante:

“Diz a teu senhor que já mandei o competente secretário responder a carta dele.”

​Na sociedade hierarquizada do Império, recusar-se a ler a carta de um homem e devolvê-la por meio de terceiros era o ápice da humilhação pública.

​O Olhar do Historiador: O que há por trás da fofoca?

​Para além do escândalo da Batalha oitocentista, este episódio nos revela duas dinâmicas fundamentais do Piauí imperial:

  • Alianças de Poder pelo Casamento: O texto deixa explícita a forte ligação familiar e política entre o Tenente Francisco Florindo e o Coronel Pires Ferreira (relação de genro e sogro), mostrando como as elites locais agiam em bloco para proteger seus interesses econômicos.
  • A Imprensa como Armas de Arremesso: O Partido Conservador utilizava o ridículo e a exposição da vida privada como estratégia política para desqualificar a idoneidade moral de seus opositores perante a opinião pública.

​No próximo capítulo, sairemos dos pastos e das disputas por cavalos para invadir as audiências judiciais da Vila da Batalha. O Sr. Torres resolveu armar uma tremenda gritaria na porta do juiz municipal e intimar um advogado para a briga de rua!

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