Notas de Resistência: A Banda de Música Oculta da Batalha Imperial (Parte 3)

Se nas postagens anteriores cruzámos as linhas de chumbo do jornal maranhense O Paiz (maio de 1870, nº 62) para desvendar o ano do falecimento de meu tio-tetravô e os escândalos de partilha de terra entre cunhados, o item XI daquela mesma correspondência guardava uma revelação histórica comovente. Uma relíquia documental que traz à tona um facto totalmente omitido e desconhecido pelos livros de história locais: a existência de uma Banda de Música na Vila da Batalha em pleno ano de 1870.

​As disputas políticas da época eram tão mesquinhas que invadiam até as cerimónias religiosas e os rituais de compadrio. O estopim do "climão" paroquial narrado por Antônio Narciso Xavier Torres ocorreu durante o batizado de seu filho.

​O Desafio dos Músicos ao "Grão Senhor"

​Segundo o relato, o poderoso José Amaro Machado — apelidado por Narciso de o "Grão Senhor" — tentou de todas as formas boicotar a celebração, chegando a pressionar e "comprometer" os músicos da Vila para que não comparecessem.

​No entanto, o que José Amaro não esperava era que os artistas locais fizessem da sua arte um ato de independência política. Nas palavras textuais de Antônio Narciso:

"A musica, apezar de assim compromettida, deu uma prova e uma lição a elle de ser livre e independente. Antecedente ao acto do baptisado de meu filho, pedio-me ella para solemnisal-o na igreja, e sendo por mim acceita tamanha benignidade, foi ella tocar com todo o entusiasmo da etiqueta..."

(Nota de tradução para os leitores do século XXI: "Solemnisal-o" é a grafia antiga de solenizá-lo. Naquela época, significava celebrar um ato com gala, pompa e o máximo de respeito, formalidade e dignidade. Em bom português atual: a banda queria fazer o batizado "com grande estilo", transformando a cerimónia numa verdadeira festa solene por meio da música).

​Um "Camaleão" de Raiva na Igreja

​A audácia da banda em desafiar o chefe político local dentro do templo sagrado gerou uma cena quase caricata. Narciso descreve a fúria do cunhado com uma ironia impagável, típica da imprensa satírica do Império, que buscou desmoralizar o rival pelo ridículo:

"...causando isto ao Grão Senhor, tamanha raiva, que de branco ficou amarello, de amarello roxo &, causando esse phenomeno a todos, que lá estavão, tamanho espanto, que se retirarão como que assombrados."

​O Resgate do Maestro Esquecido

​Mais do que a anedota da briga familiar, o valor impagável desse recorte está no encerramento do parágrafo. Nele, Antônio Narciso faz questão de registrar os agradecimentos públicos e imortalizar o nome do regente daquela banda de música esquecida pelo tempo:

"Cabe-me aqui agora agradecer a todos em geral da banda da musica, que me honrarão nessa occasião, e com especial mensão ao Sr. Pedro de Alcantara, seu digno professor."

​O Som que a História não Apagou

​Para quem reconstrói a historiografia da Vila da Batalha, esse parágrafo vale ouro. O professor Pedro de Alcântara e seus músicos anónimos saltam das sombras do passado diretamente para a história oficial do município.

​Eles provam que, mesmo sob o peso de um "odioso predomínio" político, a Vila da Batalha de 1870 já pulsava cultura, possuía sensibilidade artística e encontrava nas notas musicais uma forma altiva de dizer que a arte, afinal, deve ser sempre livre e independente.

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