O Sopro da Liberdade: Uma Linha do Tempo Musical de Batalha

O silêncio nunca durou muito tempo nas calçadas da Vila da Batalha. Se os livros de história local por anos silenciaram sobre as origens da nossa música instrumental, os velhos papéis de imprensa cuidaram de guardar o rastro dos dobrados, das valsas e da altiveza daqueles que fizeram das notas musicais um hino de independência.
O Acorde Rebelde do Império (1870)
Tudo começa em pleno Segundo Reinado. O ano era 1870, e o ambiente político, severo e centralizador. O poderoso chefe local, apelidado na imprensa de "Grão Senhor", tentou estender seus tentáculos de censura até o sagrado ritual de um batizado, pressionando os músicos da vila para que ficassem em silêncio. Mas a arte, por natureza, desobedece. Sob a batuta firme do Professor Pedro de Alcântara — a "banda de música", ainda sem nome oficial, mas já cheia de brio, marchou para dentro da igreja Matriz. Contar com a regência de uma autoridade musical vinda da capital era um luxo para a localidade. Eles tocaram com "todo o entusiasmo da etiqueta", desafiando o mandonismo político local. A audácia da banda gerou uma cena quase caricata na igreja: a crônica da época narrou a fúria do rival com uma ironia impagável, descrevendo que, de tanta raiva, ele "de branco ficou amarelo, de amarelo roxo", causando espanto em todos os presentes. Ali, em 1870, a música batalhense assinava sua certidão de nascimento: ela nascia livre.
O Alvorecer da "Lyra" na República (1910–1911)
Quarenta anos depois, com o advento da República, aquela veia artística já havia amadurecido e ganhado nome de gala: «Lyra Carlos Gomes», uma homenagem categórica ao maior gênio da ópera imperial. Em agosto de 1910, a banda vivia dias de glória, atuando como orquestra no coro da igreja e conduzindo a procissão de Nossa Senhora de Lourdes com suas harmonias impecáveis, sob a liderança do "habilíssimo" mestre Firmino Paulo de Carvalho (tio do ex-vereador Zé Murilo, de saudosa memória). O destino, contudo, impôs uma nota melancólica: poucas semanas após aquela festa, em setembro de 1910, o jovem regente e alfaiate foi vitimado precoce e tragicamente pelo beribéri.
Mas a Lyra não silenciou. O bastão da liderança foi estendido ao "moço illustrado" Francisco Domingos Nery, maestro que provavelmente era os de seus laços com Piracuruca. A nomeação de Nery fortalecia os vínculos culturais entre os dois municípios vizinhos, tanto que, em março de 1913, ele figuraria ativamente na diretoria do "Clube Carnavalêsco dos Dilettantes" piracuruquenses como 1° Secretário. Sob a regência de Nery, cujo aniversário em julho de 1911 movimentou a crônica social da então Vila de Campos Salles, a bem afinada banda de Batalha viajou a Piracuruca em setembro daquele ano. Foram aplaudidos de pé pelas maiores autoridades do Estado durante a recepção ao Senador Gervásio de Brito Passos, mostrando que a música unia as duas terras em torno de um mesmo compasso.
A Centúria do Gênio Autodidata
Enquanto Francisco Nery regia a Lyra in 1911, um jovem negro, de estatura elevada e passos elegantes, observava atento o compasso dos sopros. Era Manoel da Costa Lima, o Mestre Fabiano, cuja verdadeira idade a própria história guardou em mistério. Sem um registro de nascimento de época, as certidões civis divergiam sobre seus anos: ao se casar em 1925, declarou ter 30 anos (nascimento em 1895); em 1957, no casamento da filha, constou que nascera em 1900. Décadas mais tarde, seu assento de óbito lavrado no livro do Registro Civil — conforme revelado no documento Obito — apontou que ele faleceu em 11 de junho de 1992, aos 99 anos, indicando a data de nascimento em 5 de maio de 1893. Essa imprecisão, longe de ser um erro, reflete a mística de um homem que a própria comunidade e os familiares sempre quiseram mais velho, quase ancestral — tanto que, no ano passado, em 2025, realizou-se um evento festejando seus supostos 140 anos.

Independente das rasuras do tempo nos livros de cartório, o fato é que Manoel Fabiano começou na poeira dos coretos como tarolista, passou pelo trombone e encontrou sua imortalidade nas chaves de um saxofone virtuoso. Sem nunca ter estudado música formalmente, desafiou o racismo estrutural da época com a soberania do seu talento. Cortou o Nordeste, ganhou o Maranhão e o Ceará, orquestrou posses de governadores em 1916 e eternizou corações com a valsa "Momentos Felizes" em 1918. Viveu uma longa e lúcida jornada de arpejos d'alma, tornando-se a maior e mais fascinante referência musical de todos os tempos da nossa terra.
O Jubileu de Rubi: A Música Viva Hoje (1986–2026)
O tempo passou, as vilas viraram cidades modernas, mas a tradição se recusou a virar peça de museu. Em 1986, a herança de Pedro de Alcântara, de Firmino Carvalho e de Francisco Nery foi institucionalizada para uma nova era: nascia a atual banda de música do município. E não haveria outro nome possível para batizá-la senão o dele: Banda de Música "Manoel Fabiano".
Neste ano de 2026, a nossa corporação musical celebra com orgulho o seu Jubileu de Rubi — 40 anos de fundação. Quarenta anos soprando a identidade de um povo; cento e cinquenta e seis anos desde que os primeiros acordes ecoaram na Matriz de São Gonçalo.
Dos músicos anônimos de 1870 aos jovens instrumentistas de 2026, a moral dessa longa melodia permanece rigorosamente a mesma: na brava Batalha, governos passam, impérios caem, repúblicas se sucedem, mas o sopro da arte continua — e sempre continuará — livre, independente e imortal.
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