As Cornetas da Política: O Duelo de 1954 e a Origem d'A Pororoca

A disputa pela prefeitura opôs dois grupos políticos tradicionais: a União Democrática Nacional (UDN), que apresentava como candidato o senhor Magno Pires (pai do futuro prefeito Antonio Lages Alves), e o Partido Social Democrático (PSD), representado por Machado Melo.
Sem palanques diários, o debate eleitoral travava-se no ar através das cornetas de duas amplificadoras rivais:
- A Voz de Santo Antônio: Vinculada à candidatura de Machado Melo (PSD), funcionava nas proximidades da residência onde morou o professor Geraldo Vieira, na avenida Coronel Messias Melo, poucos metros da morada de Machado. Seu locutor principal era José Murilo, lembrado por sua excelente oratória.
- A Voz da Pororoca: Serviço de som do grupo de Magno Pires (UDN), instalado na residência do senhor Lucas Nunes, tio do Pastor Lucimar Rocha, atrás da Igreja Matriz de São Gonçalo. Na locução estava Osmar Saavedra, figura destemida vinda do Amazonas (com laços familiares em Esperantina).
A marca registrada d'A Voz da Pororoca em 1954 era a execução do vibrante dobrado "Quatrocentão" (composto por Altamiro Carrilho e sua Bandinha em homenagem ao quarto centenário de São Paulo), gravado naquele mesmo ano e utilizado para anunciar o início das transmissões, relembra Lucimar Rocha.
O Renascimento d'A Pororoca (1988)
Três décadas após o pleito de 1954, a tradição do rádio de poste ressurgiu com nova força. Em outubro de 1988, durante as movimentações que antecederam a posse do prefeito eleito Antonio Lages, seu secretário, Lucimar Rocha, decidiu resgatar a histórica amplificadora.
A montagem inicial foi uma verdadeira obra de engenharia comunitária na quadra do Mercado Municipal Salvador Quaresma de Melo: utilizando o mesmo mastro de madeira (pau-pombo) empregado na hasteada da bandeira do festejo de São Francisco do Bairro Esperança II, mais de dez homens da comunidade uniram forças para erguer a estrutura com quatro cornetas direcionadas para cobrir a cidade.
Patrimônio Afetivo, Resistência e Reconhecimento
Sob a locução marcante e o tom grave do Pastor Lucimar Rocha, a amplificadora consolidou-se no cotidiano do município. A saudação matinal tornado marca registrada — “Bom dia Batalha, bom dia meu amor...” — passou a fazer parte da rotina de lares, comércios e trabalhadores locais.
Ao longo de mais de 30 anos de operação ininterrupta, A Voz da Pororoca enfrentou desafios, incluindo tentativas de silenciamento por meio de abaixo-assinados. A permanência do serviço, contudo, foi garantida pelo forte apoio popular e pelo respaldo de lideranças locais, como o Padre Pinto, que costumava defender o alto-falante como o "despertador de Batalha", essencial para saudar a rotina de trabalho.
A dimensão cultural da amplificadora ultrapassou as fronteiras municipais:
- Homenagens Legislativas: A Câmara Municipal de Batalha concedeu o Título de Honra ao Mérito ao Pastor Lucimar Rocha e aprovou o Projeto de Lei, reconhecendo A Voz da Pororoca como Patrimônio Cultural do Município.
- Reconhecimento Estadual e Nacional: A história da amplificadora foi tema de reportagens especiais em emissoras como TV Antena 10 e TV Clube, além de um documentário produzido pela TV Justiça, veiculado nacionalmente.
- Comenda do Mérito Renascença: Por sua contribuição à memória e à comunicação comunitária do Piauí, o Pastor Lucimar Rocha foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem Estadual do Mérito Renascença, concedido pelo Governo do Estado.
Olhar para a trajetória d’A Voz da Pororoca é compreender como a história de Batalha se renova sem perder suas raízes. O que nasceu em 1954 no calor de uma disputa partidária — impregnado do simbolismo da antiga Fazenda Pororoca do Coronel Antônio Pires Lages — transmutou-se, décadas mais tarde, em um genuíno instrumento de união comunitária e pertencimento.
Mais do que um resgate nostálgico, a preservação dessa história — documentada em matérias de jornal, chancelada por leis municipais e viva na memória dos batalhenses — reafirma o papel essencial da comunicação popular na construção da identidade local. Que as futuras gerações, ao ouvirem o ecoar de suas cornetas ou ao folhearem estas páginas, lembrem-se de que a identidade de uma terra se constrói na força de suas vozes, na preservação de suas memórias e no orgulho inegociável de sua gente.
Há documentos que registram fatos. Outros preservam a alma de um povo.
ResponderExcluirMeu sincero agradecimento ao amigo Everardo Torres, tão batalhense quanto eu, pela sensibilidade e pelo brilhante documentário dedicado à Voz da Pororoca, um verdadeiro patrimônio da história e da comunicação popular de nossa querida Batalha.
Há cerca de cinquenta anos, era comum que muitas cidades brasileiras fossem despertadas pelo som de seus alto-falantes, levando notícias, avisos e mensagens de interesse público. Com o passar do tempo, esse costume desapareceu em quase todos os lugares, tornando-se apenas uma lembrança. Batalha, porém, soube preservar essa tradição.
A Voz da Pororoca continua cumprindo sua missão por meio de quatro alto-falantes instalados no alto de uma torre metálica, levando diariamente, a partir das seis horas da manhã, informações, notícias, campanhas educativas, comunicados oficiais e diversos serviços de utilidade pública. Muito mais que um sistema de som, tornou-se um elo entre a cidade e seu povo, um símbolo de identidade, pertencimento e memória coletiva.
Tenho a honra de estar à frente desse trabalho há muitos anos, procurando exercê-lo com responsabilidade, respeito e compromisso com a nossa comunidade. Pela graça de Deus e pela confiança do povo batalhense, esse serviço recebeu reconhecimento de diversas instituições: Prefeitura Municipal, Câmara de Vereadores, escolas, entidades representativas, além de homenagens registradas em livros, Trabalhos de Conclusão de Curso, reconhecimento do Governo do Estado e reportagens exibidas pela TV Justiça e por outros veículos de comunicação.
O documentário de Everardo Torres eterniza essa história. É um registro precioso que demonstra que preservar a memória é preservar a identidade de um povo. As gerações futuras poderão conhecer um tempo em que a voz que ecoava dos alto-falantes também ecoava no coração da cidade.
Parabéns, Everardo! Seu trabalho não apenas conta uma história; ele presta um serviço à cultura, à memória e ao povo de Batalha. Que Deus continue abençoando sua dedicação em preservar aquilo que faz parte da nossa identidade.
A Voz da Pororoca não é apenas um serviço de comunicação. É a voz da história, da tradição e do coração de Batalha.