O Caso da Coletoria (1888): Intrigas e Parentesco às Vésperas da República

Um exemplo primoroso dessa "imprensa de trincheira" está estampado na edição de 5 de abril de 1888 do jornal teresinense A Reforma. Sob a cortante manchete "Outro chefão", o periódico lançou suas baterias contra a liderança política da Vila da Batalha, personificada na figura do Tenente-Coronel José Florindo de Castro(tio-tetravô deste que vos escreve).
O tom da matéria desnudava o estilo combativo da época. Longe de qualquer neutralidade, o redator abria o texto ridicularizando o poder centralizador de José Florindo, que exercia cargo de promotor público na comarca de Piracuruca:
"Batalha também possui um chefão, sobrinho do sol e neto da lua; um manda-chuva de força de 600 cavalos. E' o sr. tenente coronel José Florindo de Castro, promotor publico da comarca de Piracuruca, residente naquelle termo, onde põe e dispõe assim a modo dos capitães generaes dos tempos coloniaes."
Essa linguagem hiperbólica e mordaz — apelidando o líder de "sobrinho do sol" e comparando-o aos antigos capitães-generais do período colonial — tinha o objetivo claro de pintar José Florindo como um tirano anacrônico. Contudo, essa caricatura jornalística contrastava violentamente com a biografia real do homem que era, de fato, a maior autoridade da Vila da Batalha. Longe de ser apenas um "manda-chuva" de interior, José Florindo de Castro possuía um currículo de décadas de serviço público e militar que fundamentava seu poder:
- Pilar Político: Ele foi o primeiro Intendente (prefeito) da Vila de Batalha, assumindo o cargo histórico em 07.09.1858 e permanecendo até 1860. Sua liderança era tamanha que reassumiu o mandato principal entre 1864 e 1868.
- Força Militar: Na Guarda Nacional, atingiu o posto de Capitão comandante da 1ª Companhia do 23° Batalhão de Infantaria em Batalha, promovido a este posto em 1873.
- Projeção Provincial: Sua influência rompeu as fronteiras da Vila, elegendo-se Deputado à Assembleia Legislativa Provincial na 21ª legislatura, entre os anos de 1876 a 1877.
Portanto, em 1888, A Reforma não estava atacando um político qualquer, mas um veterano consolidado, um ex-prefeito, ex-deputado e comandante militar. A grande denúncia do jornal girava em torno da cobiçada Coletoria de Rendas, órgão fiscal vital na engrenagem político-econômica regional. Segundo o articulista, o grupo de José Florindo promoveu uma verdadeira "limpa" administrativa por pura perseguição eleitoral, destituindo o Capitão Agostinho da Silva Mello (então coletor) e o Capitão Antonio Rodrigues de Carvalho (escrivão) pelo ousado crime de terem votado no candidato da oposição, o Dr. Coelho de Rezende.
Para ocupar o espaço vago, montou-se uma intrincada rede de favoritismo familiar que o jornal fez questão de escancarar e ridicularizar. Aproveitando a ausência do coletor interino, o Sérvulo Gomes de Castro, sobrinho carnal do Tenente-Coronel José Florindo de Castro, peticionou alegando que a repartição estava "acéfala". A petição foi entregue ao presidente da Câmara Municipal, Antonio Fortes de Sá Menezes — apontado pelo texto como genro do próprio José Florindo —, que prontamente nomeou como coletor interino o jovem Domingos da Silva Machado, descrito na denúncia como um "órfão [...], cunhado de Sérvulo e tutelado de José Florindo!".
Por Trás da Tinta do Jornal: As Alianças Ocultas pelo Sarcasmo
Contudo, afastar o nevoeiro da retórica satírica do jornal permite ao historiador enxergar uma teia social muito mais complexa do que o simples "compadrio" denunciado. As entrelinhas desse episódio revelam as profundas conexões da elite piauiense e, surpreendentemente, como as cisões partidárias podiam cortar a carne das próprias famílias.
A começar pela destituição do Capitão Agostinho Mello. Longe de ser um estranho no ninho, Agostinho era casado com Liduína Inês de Castro, ninguém menos que irmã germana do Capitão Sérvulo Gomes de Castro — o homem que o substituiu no cargo. A política, portanto, colocou cunhados em lados opostos da trincheira pelo controle das rendas da Vila, mostrando que a lealdade partidária muitas vezes rachava o teto doméstico.
Por outro lado, o "mísero pixote" ridicularizado pelo jornal, o jovem Domingos da Silva Machado, carregava nas veias o sangue da mais alta estirpe política da província. Domingos era filho órfão do finado Tenente-Coronel José Amaro Machado, proeminente ex-presidente da Província do Piauí falecido em 1872. A sua proximidade com o Tenente-Coronel José Florindo de Castro também se justificava pelo sagrado dever de parentesco da época: Domingos era sobrinho carnal de Dona Inês Maria da Silva (esposa de José Florindo), que por sua vez era irmã da viúva do ex-presidente, Dona Mathilde Rosa da Silva Machado.
Ao acolher o sobrinho órfão sob sua tutela e viabilizar sua inserção nos cargos públicos locais através de seu genro, o presidente da Câmara Antonio Fortes, José Florindo operava sob a lógica tradicional de proteção e manutenção do status de sua vasta parentela.
Ao expor esse xadrez, a tinta ácida de A Reforma não poupou nem o mandatário maior da província. O presidente do Piauí foi rebaixado pelo articulista à condição de um "rei de pau" ou "primeiro rei das rãs", uma autoridade decorativa e impotente diante da "anarquia administrativa" instalada nas vilas do interior.
Resgatar esse episódio, portanto, vai além de mapear as alianças e parentescos da Batalha oitocentista: permite-nos saborear a vivacidade de uma época em que as disputas pelo poder local se resolviam tanto nas urnas e cartórios quanto na retórica inflamada e satírica dos jornais.
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