O Duplo Pioneirismo de Floripes Pires: Entre a Crueza do Arquivo e os Labirintos da Memória

A escrita da história local é, frequentemente, uma costura fina feita para esconder os nós mais apertados do passado. Durante décadas, a trajetória de Floripes do Rêgo Pires no cenário público de Batalha foi contada sob o manto de uma quase santidade civil: a professora exemplar, a gestora revolucionária e a política generosa que teria abdicado de seu primeiro mandato parlamentar nos anos 1950 por pura fidalguia partidária. Contudo, quando as gavetas de ferro do arquivo do poder legislativo são abertas, a tinta desbotada de um documento de 1953 revela que a realidade política foi muito mais intempestiva e complexa do que as narrativas biográficas oficiais costumam admitir.

​O Teto de Vidro e o Peso do Sobrenome (1951–1953)

​Ao se eleger para a legislatura de 1951–1954, Floripes gravou seu nome na história do norte piauiense por meio de um feito extraordinário: tornou-se a primeira mulher a conquistar um mandato eletivo na Câmara Municipal de Batalha. Em um ambiente profundamente patriarcal, dominado por oligarquias rurais e pelos arranjos do coronelismo herdeiro da República Velha, sua presença naquela moldura de terno e gravata era, por si só, uma ruptura.

​Floripes, no entanto, não era uma figura isolada que emergia do anonimato. Ela era o rosto jovem e instruído de uma das estirpes políticas mais tradicionais da ribeira do Longá. Seu tio, Antônio Pires Lages (irmão de seu pai), consolidara a influência da família ao governar a Intendência de Batalha por duas vezes: nos períodos de 1909–1911 e 1912–1915. Anos mais tarde, seu próprio pai, o influente fazendeiro Coronel Magno Pires Alves, também comandaria a Intendência no quadriênio de 1924 a 1928. Floripes, portanto, carregava no sobrenome o prestígio, o patrimônio e as alianças de uma elite agrária enraizada na Fazenda Monte Alegre.

​Contudo, o mesmo pioneirismo que lhe rendeu os louros da vanguarda determinou um desfecho igualmente inédito e desconfortável. Floripes foi também a primeira mulher a ter um mandato cassado na história de Batalha.

​A Circular nº 1/53 da Câmara Municipal, datada de 17 de abril de 1953 e assinada pelo presidente Joaquim Norberto de Carvalho, joga luz sobre as fraturas dessa primeira experiência feminina no parlamento. O documento oficial registra, em termos claros, que a vereadora se afastou de suas funções legislativas no dia 11 de outubro de 1951 — meros dez meses após o início do mandato — "sem nenhuma comunicação".

​A reação dos pares, contudo, esteve longe de ser intempestiva. O fato de a Mesa Diretora ter aguardado um ano e seis meses para formalizar a perda do mandato evidencia o tamanho do impasse político. Cassar a herdeira da família Pires Lages exigia esticar as cordas da diplomacia paroquial até o limite; demandava um compasso de espera que denotava o profundo respeito — ou temor — ao peso de sua linhagem familiar. O silêncio prolongado da jovem normalista estendeu-se até 16 de março de 1953, quando a edilidade finalmente deliberou pela cassação definitiva, convocando o suplente Antonio Felix Rebouças de Melo.

​É legítimo indagar se a rigidez e os códigos do pragmatismo parlamentar da época não sufocaram a jovem vereadora, fazendo-a preferir o refúgio e a pureza das salas de aula — ela havia sido nomeada professora efetiva do Estado em 1948 — ao jogo de compadrio das atas legislativas.

A Engenharia do Esquecimento e a Construção do Mito

​Se a política dos anos 1950 precisou lidar com o fato burocrático e cru da cassação, as décadas seguintes encarregaram-se de operar uma sofisticada cirurgia na história local. Longe de ser sepultada pelo episódio da juventude, Floripes agigantou-se nas urnas e na liderança regional. Além de suas duas eleições para o parlamento, ela alcançou o Executivo ao ser eleita vice-prefeita em duas ocasiões emblemáticas: primeiro em 1970, na chapa da ARENA1 ao lado do prefeito Aluísio Craveiro de Melo; e depois em 1982, pelo PDS1 (sublegenda 1 do partido sucessor), compondo a chapa vitoriosa com o prefeito Antônio Machado Melo — gestão esta que a levaria a assumir a prefeitura de forma interina em 1987.

​O fortalecimento e a continuidade da família Pires no poder municipal — consolidado também quando seu irmão, Francisco das Chagas do Rêgo Pires, assumiu a vice-prefeitura pela ARENA (1972–1976), e posteriormente com a ascensão de seu irmão caçula, Antônio Lages Alves, à prefeitura — exigiam que as arestas e máculas do passado fossem devidamente aparadas. No pós-ditadura militar, a palavra "cassada" havia se tornado um ruído intolerável, que evocava punição ou erro. Era preciso, portanto, reescrever o episódio de 1951.

​Foi então que operou a engenharia da memória social, estruturada sob uma omissão deliberada e substitutiva. Em entrevista concedida ao repórter popular Lucimar Rocha, correspondente do site "Página de Batalha", publicada em 24 de agosto de 2009, a própria professora Floripes verbalizou a versão que se cristalizaria no município: ela afirmou ter renunciado ao mandato de vereadora por desprendimento, a favor de seu grande amigo Antonio Lustosa, para que este assumisse a vaga como suplente enquanto ela assumia a coordenação da educação local.

​Contudo, o cruzamento de dados eleitorais revela o anacronismo e a fragilidade dessa construção de bastidores: Antonio Lustosa sequer foi candidato naquela eleição de 1950. A narrativa da renúncia altruísta funcionou como uma brilhante estratégia de relações públicas. O silenciamento do arquivo e a substituição do fato burocrático pela fidalguia política foram aceitos e chancelados pela sociedade de Batalha porque eram harmonicamente coerentes com o papel que Floripes desempenhou no restante de sua longa vida: o de uma educadora humanista inteiramente dedicada ao bem comum.

A Revolução Educacional e Social 

As contribuições de Floripes do Rêgo Pires em benefício de Batalha, resgatadas e registradas pelo professor e doutor Raimundo Dutra (O Bidoca), confundem-se com a própria interiorização e qualificação da estrutura educacional do município. Conforme as anotações históricas do pesquisador, o compromisso social de Floripes manifestou-se desde a juventude, quando lecionou de forma voluntária por seis anos na localidade Monte Alegre, mas ganhou escala monumental com a fundação e direção de instituições pioneiras. Ela foi a fundadora e primeira diretora da Unidade Escolar Dirceu Arcoverde — a primeira escola pública estadual a quebrar o monopólio das mensalidades e ofertar gratuitamente o ensino de 5ª a 8ª séries na cidade — e do Ensino Médio Conselheiro Saraiva, onde inclusive doou seu acervo particular para criar a biblioteca Nelson Pires. Além de fundar a Creche Mãe Sinharinha na Vila Kolping, o professor Raimundo Dutra destaca que Floripes lutou incisivamente para instalar e dirigir a Escola Normal Municipal Dedila Melo no final da década de 1980, iniciativa que revolucionou o magistério local e evitou que os jovens locais continuassem a se arriscar em carrocerias de "pau de arara" para estudar no município vizinho de Esperantina.

​Para além das salas de aula, os registros do professor Raimundo Dutra revelam que as políticas públicas implementadas por Floripes durante sua passagem pelo comando do Executivo municipal transformaram o cotidiano e a dignidade das famílias batalhenses. Com um modelo inovador de transparência e organização, ela instituiu o programa Bom Dia Diário, transmitido à população por uma amplificadora instalada em um poste da prefeitura, dividindo sua agenda para dar atenção prioritária e sistemática aos moradores da zona rural e da cidade. Na área de geração de renda, os dados levantados pelo pesquisador demonstram o pioneirismo social de Floripes ao criar o programa Mulheres Varredoras, abrindo frentes de trabalho que garantiam salários fundamentais para o orçamento doméstico feminino, enquanto oportunizava aos homens a batição de estradas. Por fim, sua sensibilidade humana materializou-se na criação do SOS Saúde, um programa essencial documentado por Dutra que disponibilizava uma ambulância três vezes por semana para transportar os pacientes locais que necessitavam de consultas e tratamentos médicos especializados na capital, Teresina.

​Considerações Finais

​O ciclo histórico de Floripes do Rêgo Pires encerrou-se na noite de uma terça-feira, 13 de janeiro de 2026, quando faleceu aos 99 anos. Seu corpo foi velado com honras de Estado na Câmara Municipal e seguiu para o sepultamento na localidade Monte Alegre, na zona rural de Batalha. O retorno final ao solo do Monte Alegre carrega uma força poética profunda: foi ali que ela nasceu, viveu sua infância e adolescência, e deu seus primeiros passos no magistério.

​O resgate da Circular nº 1/53 não tem o objetivo de diminuir a estatura histórica dessa personagem, cuja folha de serviços prestados à educação e à cultura de Batalha permanece monumental e incontestável. Pelo contrário: ao revelar que ela conheceu tanto o ápice da eleição pioneira quanto o revés da cassação na juventude, o historiador remove a personagem do pedestal estático de bronze e a devolve ao tabuleiro real, humano e dinâmico da história política piauiense. Floripes foi gigante não porque foi infalível, mas porque foi capaz de reescrever o seu próprio destino, transformando o silêncio de uma cassação em 1953 no mais eloquente legado educacional que Batalha já testemunhou.

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