O Homem que Logrou o Tempo: O Enigma Cronológico de Mestre Fabiano

Há homens cuja existência é tão marcante que as folhas rígidas dos livros de cartório simplesmente não conseguem contê-las. Na brava Batalha, se há um nome que desafia os ponteiros do relógio e as certezas da burocracia civil, esse nome é Manoel da Costa Lima, o imortal Mestre Fabiano. Dono de um sopro inconfundível no saxofone, o mestre parece ter regido não apenas as bandas de música da região, mas também a sua própria contagem de anos, transformando sua biografia em um delicioso enigma para os historiadores.
Se você abrir os arquivos documentais em busca da exata certidão de nascimento do mestre, prepare-se para um labirinto de contradições onde o tempo é uma matéria maleável, moldada de acordo com a conveniência do momento ou o afeto da comunidade.
A primeira pista surge em um sábado de aleluia, no dia 11 de abril de 1925. Ao assinar o termo de um matrimônio civil audacioso, realizado na casa de Dona Nize Castro, o noivo declarou ao oficial do registro ter 30 anos de idade. Se puxarmos pela memória da aritmética, o cálculo nos joga para o ano de 1895. Naquele dia, a urgência do amor e a profissão declarada de "artista" pesavam mais do que qualquer exatidão de calendário.
Três décadas mais tarde, o tempo operou um recuo curioso. No dia 26 de janeiro de 1957, Mestre Fabiano compareceu como testemunha no matrimônio de sua filha, Martinha. Ao assinar o livro de assentos, sua data de nascimento foi fixada de forma categórica: 3 de novembro de 1900. Num passe de mágica burocrática, o mestre havia "rejuvenescido" cinco anos em relação à sua primeira declaração.
Mas se o próprio Fabiano parecia não se importar com a rigidez das datas, a tradição oral e o carinho de seus familiares e conterrâneos trataram de esticar sua longevidade para além das fronteiras comuns. No imaginário batalhense, o mestre sempre foi visto como uma figura mítica, uma entidade ancestral cujo sopro atravessou gerações. O peso dessa mística comunitária é tão forte que, no ano passado, em 2025, a cidade e os familiares uniram-se para celebrar o que seriam os seus impressionantes 140 anos de nascimento — uma conta que empurraria sua vinda ao mundo para os idos de 1885, ainda sob o manto do Império.
O fecho oficial desse quebra-cabeça, contudo, só seria escrito no inverno de 1992. O assento de óbito lavrado no termo nº 1.079 registra que o mestre silenciou seu saxofone no dia 11 de junho daquele ano, na velha Travessa São Gonçalo. No documento — cuja declarante foi sua própria filha, Maria José Lima da Silva —, o escrivão cravou que ele partia deste mundo aos 99 anos de idade, deixando anotado no campo do sepultamento o nascimento em 5 de maio de 1893.
Entre o rigor tardio do óbito de 1893, a declaração nupcial de 1895, o registro de paternidade de 1900 e o centenário mítico de 140 anos celebrado em 2025, qual seria a verdadeira idade de Manoel Fabiano?
A resposta talvez não esteja nos cartórios. Para um gênio autodidata que desafiou o racismo estrutural e gravou seu nome na eternidade da música piauiense, o tempo nunca foi uma linha reta ditada por escrivães. Mestre Fabiano logrou o tempo. Ele nasceu no dia em que tirou a primeira nota de seu instrumento e, para a história de Batalha, sua idade será sempre a mesma: a eternidade.
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