O Sopro que o Tempo Não Apagou


Há papéis que guardam mais do que tinta; guardam o próprio tempo em suspensão. Quando os olhos tocam o amarelado recorte do jornal O Dia, datado do início dos anos 2000, a sensibilidade do jornalista Raimundo Cazé nos transporta para um Piauí de memórias profundas. No texto intitulado "Resgate merecido", Cazé relembrava a honra de ter recebido em sua casa a visita do centenário Manoel da Costa Lima, o Mestre Fabiano, que aos 102 anos de idade ainda carregava consigo o peso dourado de um saxofone.

A crônica de Cazé era um misto de deslumbramento e revelação musical diante do primeiro volume do CD Alvorada Batalhense. Ao ter acesso àquele material pioneiro, o jornalista compartilhou o impacto de sua audição: "Adquiri apenas um volume, o que contém Momentos Felizes. Ao ouvir a gravação, surpreendi-me: a maior obra de Manoel Fabiano não é Momentos Felizes, e sim Francisca de Lourdes." Ele compreendia a magnitude daquele repertório piauiense e vislumbrava o potencial de suas composições, observando também que "o dobrado Torres de Melo, que também está no CD, só teria a notoriedade merecida se tivesse sido gravado por uma banda inteira, tal como foi apresentado em São Paulo, pela Banda de Música da Polícia Militar, por ocasião de encontro nacional de bandas."

O jornalista recordava que a história de Mestre Fabiano já havia sido contada por ele anos antes, em uma reportagem de página inteira que repercutiu na capital. Cazé mencionava no artigo que seu texto publicado no jornal surpreendeu as autoridades da Secretaria de Cultura do Estado do Piauí, porém acrescentava com amargura que não soube de nenhuma ação prática daquela pasta no sentido de resgatar a vasta obra musical do grande compositor de Batalha.

​Diante daquela inércia oficial, o artigo registrava que os idealizadores da gravação haviam sido os próprios familiares do maestro, observando que a ausência de marcas governamentais na capa tornava o trabalho ainda mais meritório. Era uma leitura feita a partir do desconhecimento dos bastidores reais. Escreveu o jornalista: "Ouvidos mais exigentes haverão de constatar algumas deficiências na produção, o que seria perfeitamente explicável. Porém, a providência mais importante foi tomada. O trabalho foi feito em cima dos originais deixados em partituras, pelo próprio autor."

O que as páginas de jornal não contaram é que essa "providência" — o resgate minucioso de salvar as partituras originais enfrentando as limitações técnicas e a ausência de apoio público — foi fruto da obstinação de George Machado Tabatinga. Mentor e financiador do projeto, George arcou com os custos daquele primeiro volume nos anos 1990. E o seu ímpeto de preservação histórica não parou ali. Nos anos 2000, ao idealizar e produzir o Alvorada Batalhense (Volume II), George foi além da música do maestro e tomou uma decisão de pura sensibilidade arqueológica: imortalizou na faixa de número 12 o som do majestoso sino de bronze da Matriz de São Gonçalo.

Aquele som, que por longo tempo funcionou como o único meio de comunicação de massa da antiga Vila da Batalha, carregava em suas vibrações a própria história do Brasil Regencial. O sino — patrimônio histórico e cultural da cidade — fora fundido no Quartel das Barras pelo Mestre Manuel Resplende, entre 1838 a 1841 durante a sangrenta revolta dos Balaios.

Hoje, o velho sino de bronze já não toca mais. Uma trinca severa em sua estrutura física e a tensão do metal impedem a vibração contínua necessária para ressoar, o que forçou sua aposentadoria há algumas décadas. Mas o seu tradicional badalo, que embalou gerações inteiras, não se perdeu: ficou eternizado na gravação digitalizada por George.

O jornalista Raimundo Cazé partiu em abril de 2021, aos 77 anos, vítima da Covid-19. Hoje, ao ler o histórico recorte e ouvir os dois volumes do Alvorada Batalhense, compreende-se o quadro por inteiro: se as linhas de Cazé foram o sopro que cobrou o reconhecimento de Manoel da Costa Lima, o desprendimento e o sacrifício de George Machado Tabatinga foram o alicerce real que impediu que a música do Mestre Fabiano e o histórico eco do bronze de São Gonçalo silenciassem para sempre.

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