As Quatro Receitas do Médico dos Monomaníacos (Capítulo 4): Delírios na Praia e Bananas para o Padre

Chegamos ao último capítulo da nossa série baseada na impagável crônica satírica de 25 de fevereiro de 1870, resgatada das páginas do jornal O Piauhy: Orgão do Partido Conservador.

​Depois de testemunharmos o Capitão Antonio Narcizo Xavier Torres se envolver em calotes de éguas no interior, intimar advogados na calçada e peitar juízes por causa de um órfão, a "quarta e última receita" do nosso anônimo Médico dos Monomaníacos nos leva para longe dos limites da Vila da Batalha. Descobrimos que, quando o Capitão decidia viajar para espairecer, o rastro de polêmica viajava junto na bagagem.

​O cenário desta vez? O ano era 1868, e o destino, o calor do litoral piauiense.

​A 4.ª Receita: Uma Confissão Inusitada na Amarração

​Buscando novos ares, o Capitão Torres viajou até a povoação da Amarração (o antigo território que hoje compreende a cidade litorânea de Luís Correia). No entanto, o clima de veraneio parece ter subido à cabeça do capitão de forma literal.

​De acordo com o relato ferino do jornal, Torres se embriagou na povoação de tal maneira que começou a apresentar comportamentos completamente desordenados e fortes delírios. A situação ficou tão dramática que outro oficial de prestígio que estava no local, o Capitão Antonio Jozé Análio de Miranda, julgou que o colega corria iminente perigo de vida por conta do porre homérico.

​Preocupado com a alma de Torres, o Capitão Jozé Análio não pensou duas vezes e mandou chamar urgentemente a maior autoridade espiritual da paróquia: o Reverendo Padre Taboza, capelão do lugar, para confessar o enfermo antes que o pior acontecesse.

​O que o Capitão Jozé Análio e o Padre Taboza não esperavam era a reação do "moribundo". Longe de se arrepender de seus pecados, o Capitão Torres despertou de seus delírios furioso com a interrupção. Em vez de aceitar a extrema-unção ou a confissão, ele recebeu o coitado do Padre Taboza a base de insultos e pacovas (o termo da época para bananas)! O clérigo saiu correndo, escorraçado por uma chuva de frutas e desaforos.

​O cronista encerra a sua quarta receita apelando para o testemunho indignado do Capitão Jozé Análio e do próprio Padre Taboza para provar que a história não era boato de pescador.

​O Desfecho do "Médico": Uma Sova na Vila da União

​Ao finalizar o seu prontuário público, o irônico Médico dos Monomaníacos se despede do Capitão com um conselho final recheado de deboche. Ele avisa que, se nenhuma das quatro receitas anteriores funcionasse para curar o temperamento do paciente, restava apenas um remédio caseiro (uma "meizinha"):

​Ele sugere que o Capitão Torres procure as famosas benzedeiras e curandeiras da região, nominalmente a "Catharina e suas companheiras", que atendiam na Vila da União (atual cidade de União). Mas o tratamento proposto não envolvia chás ou rezas: o cronista garante que, ao chegar lá, as mulheres dariam ao Capitão "uma boa sova" para assentar os seus brios de uma vez por todas.

​O Olhar do Historiador: O Fim da Linha na Imprensa Partidária

​Encerrando a nossa análise histórica, este último capítulo nos ajuda a amarrar o contexto geral da época:

  • O Litoral como Refúgio e Perigo: A Amarração (Luís Correia) já era um ponto de trânsito e veraneio para os sertanejos e elites do Norte do Piauí. Mas o isolamento das praias também era cenário propício para excessos que a rigidez das vilas maiores costumava conter.
  • O Sagrado vs. O Profano: Atacar um padre com insultos e bananas era uma quebra gravíssima de decoro em uma sociedade profundamente católica e clerical como a do Brasil Império. Ao expor isso, o jornal Conservador tentava desferir um golpe fatal na imagem de homem "professo" e respeitável do Capitão Torres.
  • A Sátira Política como Arma: Toda a estrutura das "quatro receitas" mostra o refinamento da imprensa piauiense de 1870. Usar metáforas médicas e diagnósticos de "monomania" ou "epilepsia" era a estratégia jurídica perfeita para destruir a reputação de um adversário influente sem necessariamente incidir em processos fáceis de calúnia, transformando a disputa política em puro entretenimento para os leitores da província.

Esperamos que você tenha se divertido com essa viagem pelos bastidores e barracos da Vila da Batalha em 1870!

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