Capítulo 4: Batuque, "Léléle" e Barriga Vazia

A noite que antecedeu o pleito mostrou que a política no Piauí imperial também se fazia ao som de música e, principalmente, de barriga cheia — ou, no caso de uma das facções, dolorosamente vazia.

​Enquanto o Partido Conservador passava a noite em clima de festa ordeira, marchando pelas ruas com uma "sofrível música", foguetes e muita animação, o desanimado Partido Liberal recolheu-se cedo à casa onde estava hospedado. Mas o silêncio da oposição não durou a noite inteira.

​Passada a meia-noite, o Sachristão da Matriz ouviu um barulho vindo da residência adversária e foi espiar. Para sua surpresa, o clima na cozinha era de pura descontração popular: a rapaziada se divertia em um animado "léléle" (ou bate-chinela), cantando e batucando. No meio daquela algazarra, o chefe Albino Borges Leal Júnior mantinha-se isolado na sala, sentado em um tamborete com um "ar majestático", tendo ao lado o tenente de "diminuto bigode", seu futuro genro. A festa deles varou a madrugada.

​O verdadeiro problema, contudo, amanheceu junto com o dia 7 de setembro.

​Em uma grave falha de logística — ou de consideração —, o chefe Albino Leal simplesmente abandonou seus eleitores à própria sorte. O texto narra que o líder Liberal não deu sequer o que comer aos "pobres matutos" que haviam viajado de longe, inclusive do Termo das Barras, para apoiá-lo.

​Tomados por uma fome severa, os eleitores da oposição não viram outra saída senão engolir o orgulho partidário. Cruzaram a praça e bateram diretamente na porta da casa do grande rival, o Tenente-Coronel José Amaro Machado.

​Fidalgamente, o chefe conservador abriu as portas e fartou a fome dos adversários. O resultado da generosidade (e da estratégia) do Coronel Machado foi uma debandada imediata: após "fartarem a canina", os matutos, revoltados com o descaso de Albino, protestaram em alto e bom som que nunca mais seguiriam aquele chefe. A oposição perdia ali, pela boca, os últimos traços de união antes mesmo de a urna ser aberta.

​No próximo capítulo...

​Com os ânimos definidos e a oposição enfraquecida pela fome, chega o grande momento de entrar na Igreja Matriz para a votação. Prepare-se para o desfecho desta crônica com direito a confusões na ata e até votos de cidadãos do "além". Não perca o Capítulo 5: Urnas na Matriz e Votos do Além.

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