Capítulo I: A Vila em Pé de Guerra – O Duplo Poder e o Estopim da Revolta


A manhã de 30 de outubro de 1910 amanheceu sob a habitual quentura que castiga o norte do Piauí. Mas nas oficinas do jornal O Apostolo, na Rua Ruy Barbosa, número 20, em Teresina, o clima era de pura fervura política. Sob a batuta do redator-chefe, Dr. Elias Martins, as prensas daquela publicação semanal — orgulhosamente autodeclarada como o periódico de maior circulação do Estado — faziam correr a tinta preta sobre o papel áspero da edição número 176. O semanário levava para os quatro cantos do território piauiense um brado de indignação que vinha de longe: da Vila de Campos Sales, a nossa histórica Vila da Batalha.

​A quinta página daquele exemplar trazia à luz uma crise que vinha se arrastando sob o sol da municipalidade. O texto, assinado de forma combativa por "Um Unionista", mirava diretamente a cadeira do homem mais poderoso da região: o intendente, o senhor Antonio Pires Lages.

O Duplo Poder em Xeque

​Em tom irônico e cortante, o articulista denunciava o completo descalabro urbanístico da gestão. Lages era acusado de "enfear as ruas", obstruindo as vias públicas com carros no meio da praça, erguendo prédios fora do alinhamento urbano e permitindo que criações de porcos e cabras vagassem livremente pelo centro, dando aos visitantes a incômoda impressão de se estar "nas matas", e não em uma vila republicana organizada.

​Para piorar o descontentamento, o intendente acumulava poderes que asfixiavam a comunidade: além da chefia do Executivo Municipal, exercia a função de Administrador dos Bens de São Gonçalo, o glorioso padroeiro do lugar. O controle absoluto sobre as esferas civil e eclesiástica, contudo, acabara de encontrar uma barreira moral intransponível.

​Fazia exatamente um ano e dezessete dias que o Padre Clarindo Lopes havia chegado à paróquia. A presença firme do novo vigário trouxe o esteio espiritual e a coragem que faltavam para que os moradores rompessem o silêncio. Sob a liderança moral do padre, a população perdeu o medo de confrontar os excessos do palácio municipal.

O Estopim: O Mercado na Praça das Famílias

​O limite da paciência popular foi atingido quando Antônio Pires Lages cismou em erguer um mercado público. O local escolhido? O coração social e espiritual da comunidade: a praça central, onde se situavam as moradas das famílias mais ilustres e tradicionais da sociedade batalhense. Enfiar um entreposto comercial, com todo o barulho e tumulto que lhe são inerentes, bem na frente dos lares e nos fundos da Igreja Matriz, foi visto como uma afronta direta à dignidade local.

​Reunidos em assembleia no dia 3 de outubro de 1910, dezenove cidadãos que se orgulhavam de ser "filhos do decantado solo de Mafrense" tomaram uma decisão audaciosa: a caneta seria a sua trincheira. Eles redigiram um memorial cirúrgico, enumerando 6 pontos capitais de protesto contra a obra da Intendência.

Quem Eram os 19 Corajosos?

​Desafiar o Intendente e Administrador dos Bens exigia brio. Destacando-se na lista de signatários que puseram suas reputações e assinaturas em jogo, estavam lideranças civis e religiosas de primeira linha:

  • ​Antonio Pires do Sampaio
  • ​Antônio Cunha
  • ​Padre Clarindo Lopes
  • ​Antonio Severiano Leite
  • ​José d'Oliveira Lopes
  • ​Mergelino Borges Alves
  • ​Francisco Borges Alves
  • ​Cicero Fontenelles
  • ​Jayme Theodomiro de Carvalho
  • ​Zeferino Fontenelles
  • ​Francisco Joaquim de Carvalho
  • Joaquim Ribeiro Torres (meu tio-bisavô materno, cuja firmeza com a pena ajudou a registrar o brio da nossa linhagem na história da Vila)
  • ​Ambrozio José Teixeira
  • ​Antonio José Teixeira
  • ​Antonio Fortes
  • ​João Miguel de Souza
  • ​Francisco Cunha
  • ​João Cunha
  • ​Florêncio Cunha

​Nascia ali o Manifesto dos Dezenove. Um documento tão contundente que terminou com uma advertência profética e irônica ao Intendente, comparando sua soberba ao trágico balão de Augusto Severo: "Durma, porém, socegado, não se esquecendo das calças..."

▶ No próximo post da série: Vamos destrinchar o Ponto 2 do protesto. Por que a instalação do mercado na praça residencial foi considerada um ataque direto à sociabilidade e à paz das famílias da Vila da Batalha? Não perca! Clique no link abaixo!!

Capítulo II: O Centro não é Curral – A Defesa da Sociabilidade e das Famílias Batalhenses

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