Capítulo I: A Vila em Pé de Guerra – O Duplo Poder e o Estopim da Revolta

A quinta página daquele exemplar trazia à luz uma crise que vinha se arrastando sob o sol da municipalidade. O texto, assinado de forma combativa por "Um Unionista", mirava diretamente a cadeira do homem mais poderoso da região: o intendente, o senhor Antonio Pires Lages.
O Duplo Poder em Xeque
Em tom irônico e cortante, o articulista denunciava o completo descalabro urbanístico da gestão. Lages era acusado de "enfear as ruas", obstruindo as vias públicas com carros no meio da praça, erguendo prédios fora do alinhamento urbano e permitindo que criações de porcos e cabras vagassem livremente pelo centro, dando aos visitantes a incômoda impressão de se estar "nas matas", e não em uma vila republicana organizada.
Para piorar o descontentamento, o intendente acumulava poderes que asfixiavam a comunidade: além da chefia do Executivo Municipal, exercia a função de Administrador dos Bens de São Gonçalo, o glorioso padroeiro do lugar. O controle absoluto sobre as esferas civil e eclesiástica, contudo, acabara de encontrar uma barreira moral intransponível.
Fazia exatamente um ano e dezessete dias que o Padre Clarindo Lopes havia chegado à paróquia. A presença firme do novo vigário trouxe o esteio espiritual e a coragem que faltavam para que os moradores rompessem o silêncio. Sob a liderança moral do padre, a população perdeu o medo de confrontar os excessos do palácio municipal.
O Estopim: O Mercado na Praça das Famílias
O limite da paciência popular foi atingido quando Antônio Pires Lages cismou em erguer um mercado público. O local escolhido? O coração social e espiritual da comunidade: a praça central, onde se situavam as moradas das famílias mais ilustres e tradicionais da sociedade batalhense. Enfiar um entreposto comercial, com todo o barulho e tumulto que lhe são inerentes, bem na frente dos lares e nos fundos da Igreja Matriz, foi visto como uma afronta direta à dignidade local.
Reunidos em assembleia no dia 3 de outubro de 1910, dezenove cidadãos que se orgulhavam de ser "filhos do decantado solo de Mafrense" tomaram uma decisão audaciosa: a caneta seria a sua trincheira. Eles redigiram um memorial cirúrgico, enumerando 6 pontos capitais de protesto contra a obra da Intendência.
Quem Eram os 19 Corajosos?
Desafiar o Intendente e Administrador dos Bens exigia brio. Destacando-se na lista de signatários que puseram suas reputações e assinaturas em jogo, estavam lideranças civis e religiosas de primeira linha:
- Antonio Pires do Sampaio
- Antônio Cunha
- Padre Clarindo Lopes
- Antonio Severiano Leite
- José d'Oliveira Lopes
- Mergelino Borges Alves
- Francisco Borges Alves
- Cicero Fontenelles
- Jayme Theodomiro de Carvalho
- Zeferino Fontenelles
- Francisco Joaquim de Carvalho
- Joaquim Ribeiro Torres (meu tio-bisavô materno, cuja firmeza com a pena ajudou a registrar o brio da nossa linhagem na história da Vila)
- Ambrozio José Teixeira
- Antonio José Teixeira
- Antonio Fortes
- João Miguel de Souza
- Francisco Cunha
- João Cunha
- Florêncio Cunha
Nascia ali o Manifesto dos Dezenove. Um documento tão contundente que terminou com uma advertência profética e irônica ao Intendente, comparando sua soberba ao trágico balão de Augusto Severo: "Durma, porém, socegado, não se esquecendo das calças..."
▶ No próximo post da série: Vamos destrinchar o Ponto 2 do protesto. Por que a instalação do mercado na praça residencial foi considerada um ataque direto à sociabilidade e à paz das famílias da Vila da Batalha? Não perca! Clique no link abaixo!!
Capítulo II: O Centro não é Curral – A Defesa da Sociabilidade e das Famílias Batalhenses
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