Capítulo II: O Centro não é Curral – A Defesa da Sociabilidade e das Famílias Batalhenses

Fotografia da década de 1940

O primeiro ponto que os dezenove signatários colocaram no papel, naquele tenso 3 de outubro de 1910, mirava diretamente o coração da vida comunitária na Vila da Batalha. Eles não eram contra o progresso ou contra a existência de um mercado público; eles defendiam que cada coisa deveria ter o seu devido lugar na engrenagem de uma vila que se pretendia civilizada.

​Ao abrir o manifesto, as lideranças locais cravaram no item número um: o mercado não poderia ser erguido ali por se tratar de uma praça "onde tem as suas residências quase todas as melhores famílias da nossa sociedade".

​A Praça como Extensão do Lar

​Para entender o tamanho da afronta cometida pelo Intendente Antônio Pires Lages, é preciso fazer um exercício de retorno ao passado, auxiliado pela preciosa fotografia da década de 1940. Naquela época, a praça central — esse amplo espaço aberto que vemos em primeiro plano — funcionava como a extensão dos lares das famílias tradicionais. Era o ponto de encontro após as novenas, o local onde os vizinhos colocavam as cadeiras nas calçadas ao cair da tarde, onde as crianças brincavam sob os olhos atentos dos pais e onde a sociabilidade batalhense se manifestava em sua forma mais pura.

​Instalar um mercado público exatamente ali significava romper, de forma violenta, com essa harmonia urbana. Na visão dos manifestantes, o entreposto comercial traria consigo uma dinâmica completamente incompatível com o ambiente residencial:

  • ​O vaivém barulhento de marchantes, comboieiros e negociantes desde a alta madrugada;
  • ​O acúmulo de detritos, restos de feira e odores que fatalmente invadiriam as janelas das moradas vizinhas;
  • ​O tráfego desordenado de animais de carga, agravando a situação daquela praça que o Intendente já insistia em "enfear".

​O Brio de uma Comunidade que Prezava o Decoro

​Ao assinarem o documento, homens como o Padre Clarindo Lopes, Antônio Cunha, Joaquim Ribeiro Torres, estavam delimitando uma fronteira entre o espaço do comércio e o espaço da convivência familiar. Eles argumentavam que a Intendência agia com um "completo insulamento" e capricho, ignorando deliberadamente que aquela área urbana pertencia ao bem-estar coletivo, e não aos planos teimosos de um governante autoritário.

​A Vila da Batalha orgulhava-se de sua respeitabilidade. Permitir que o centro residencial fosse engolido pelo tumulto de um mercado era, para os "Unionistas", um retrocesso inadmissível. O Ponto 1 do protesto foi o grito de alerta: o centro da vila era das famílias, e a sociabilidade batalhense merecia ser respeitada.

​Antônio Pires Lages ignorou o apelo e, anos mais tarde, o mercado de fato passou a funcionar por trás da Igreja Matriz de São Gonçalo. Porém, a história se encarregou de registrar que, antes que o primeiro tijolo daquela obra fosse assentado, a caneta de dezenove homens de bem se ergueu em defesa do brio e do sossego de sua gente. 

▶ No próximo capítulo: Vamos explorar o Capítulo III: O Direito ao Logradouro, analisando o Ponto 2 do manifesto. Como os cidadãos argumentaram que a praça era um bem público inalienável e que sua ocupação arbitrária causaria um "dano de contínuo" para toda a posteridade da vila?

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